Prefácio do livro “Viagem à luta armada”

FRANKLIN MARTINS





O autor deste livro, Carlos Eugênio Paz, participou intensamente da luta armada entre os anos de 1967 e 1973. Aos 17 anos, ainda estudante secundarista, integrou-se à Ação Libertadora Nacional, organização revolucionária dirigida por Carlos Marighella, que se propunha a derrubar a ditadura militar através da guerra de guerrilhas. Em pouco tempo, tornou-se um dos principais chefes militares da ALN, comandando um dos seus mais ativos grupos de combate. Poucos militantes participaram de tantas ações armadas naquele período como Clemente (ou Quelé), pseudônimo atrás do qual escondia-se Carlos Eugênio. Poucos também foram caçados tão ferozmente pelos órgãos de segurança como ele. O impressionante é que tenha sobrevivido. Por si só, isso já seria credencial bastante para que seu depoimento sobre a época fosse importante. Mas ainda há mais.

Não existem muitas pessoas que, por sua experiência direta, tenham conhecido o cotidiano e as entranhas da luta armada desde o seu começo até o fim. As quedas nas organizações revolucionárias, como a ALN, o Colina, a VPR, o MR-8, a VAR- Palmares, o MRT, a Rede etc., sucediam-se com tal rapidez, que seus dirigentes mal tinham tempo para esquentar as cadeiras. Por isso mesmo, os que sobreviveram, geralmente, só podem falar com segurança sobre períodos muito curtos. Raríssimos são aqueles que puderam formar urna visão completa do processo, desde a época em que o sonho da luta armada supunha-se invencível até os estertores da guerrilha urbana, quando os militantes morriam como moscas, e o ódio e o desespero assumiram o lugar da esperança e da certeza no futuro. Carlos Eugênio é um deles.

Bem, tudo isso seria o bastante para garantir um depoimento importante, mas não necessariamente um bom livro. E “Viagem à Luta Armada” é um bom livro. Talvez seja mesmo um excelente livro. Não falo como crítico literário, que não sou, mas como alguém que viajou a mesma viagem dessas páginas e nelas se reconheceu e com elas se emocionou e se indignou e se torturou e se abateu e se reconstruiu. O livro às vezes é discursivo, há passagens com adrenalina demais, em alguns momentos os pronomes ricocheteiam fora do lugar, mas nada disso compromete sua força. A tensão é constante, da primeira à última linha, costurada em rajadas curtas, que vão e voltam, em mergulhos cada vez mais profundos num poço que parece não ter fim. Lê-se de um fôlego. Acaba-se sem fôlego.

Algumas referências históricas são indispensáveis para que não se julgue os personagens deste livro pelos padrões de hoje. Aqueles que pegaram em armas para lutar contra a ditadura podem ter escolhido um caminho errado, mas não eram loucos ou doidivanas. Certos ou errados, eram homens de seu tempo, jovens de seu tempo, um tempo diferente do que agora vivemos.

Lutaram numa época em que mercado era o lugar onde as donas de casa faziam compras, e não a toda-poderosa entidade mítica que, atualmente, para alguns, deve comandar a humanidade com sua mão invisível. Massa era o povo a caminho de se encontrar com seu destino revolucionário, e não uma tentação para os que estão em dieta. Quem não tinha informação sobre um assunto estava mais por fora do que umbigo de vedete, uma expressão que chega a soar brejeira hoje, tal o recuo do pano e o avanço da carne nos fios dentais, tangas e asas deltas. O sucesso era importante, mas não a qualquer preço. Valores como solidariedade, lealdade, amizade ainda não tinham virado piada e esquentavam o coração de muita gente. Era um tempo diferente.

Um em cada três homens vivia, então, num país socialista. Não eram poucos os que apostavam que o capitalismo, incapaz de resolver os grandes problemas da humanidade, estava cambaleante. Quanto à União Soviética, não só estava de pé como vinha de humilhar os Estados Unidos, ao colocar o primeiro homem no espaço. Se a Terra era azul, como dissera Gagarin, o futuro parecia vermelho. A Revolução estava na ordem do dia.

Anos antes, um punhado de jovens guerrilheiros barbudos entrara em Havana e, pouco depois, proclamara a primeira república socialista da América Latina. A legenda do Che Guevara, morto nas selvas da Bolívia, corria solta pelo Terceiro Mundo. No Vietnã, um pequeno país de homens pequenos derrotava o mais sofisticado e poderoso exército do mundo. Um vento de contestação soprava pela Europa. Na África, o colonialismo chegara ao fim. Eram tempos de mudança.

Em meio a esse quadro, o Brasil vivia sob uma feroz ditadura. Em 1964, os militares depuseram o presidente da República, João Goulart, afastaram dezenas de deputados e senadores do Congresso, fecharam sindicatos e entidades estudantis, e assumiram o poder. As forças de esquerda, dos trabalhistas aos comunistas, não esboçaram qualquer reação. Foram derrotados sem dar um tiro, e se desmoralizaram. O trauma ficou. Viria à tona mais tarde.

Os líderes civis do golpe de 64, que esperavam que a presença dos militares no comando do país seria efêmera e o poder logo lhes cairia no colo, enganaram-se. Os chefes das Forças Armadas decidiram que só devolveriam a cena depois de extirpar o perigo comunista. E, como viam comunistas por todos os lados, foram ficando no poder. Assim, o marechal Castello Branco foi eleito presidente e, pouco depois, teve seu mandato prorrogado. Quando a oposição ganhou as eleições para os governos de Minas e do Rio, em 1965, o regime extinguiu os partidos. E, assim, de golpe em golpe, o regime foi se fechando cada vez mais.

Em 1968, a oposição da classe média à ditadura extravasou através do movimento estudantil, que ganhou as ruas em todo o país e deu um caráter de massas - olha o dedo do passado no meu texto - à contestação política. As manifestações, inicialmente, foram reprimidas a golpes de cassetete e cargas de cavalaria. No final do ano, já eram dispersadas à bala. No mesmo ano, operários metalúrgicos - primeiro em Contagem (MG), depois em Osasco (SP) - entraram em greve e ocuparam as fábricas. Foram desalojados violentamente, mas deixaram a senha de que um novo movimento operário, mais radicalizado e mais moderno, estava em gestação. Enquanto isso, a oposição política contra a ditadura rearticulava-se com a fundação da Frente Ampla, que reuniu João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, respectivamente, ex-adversários e líderes dos principais partidos extintos, o PTB, o PSD e a UDN.

Acuado, o regime militar reagiu com o AI-5, endurecendo ainda mais a ditadura: Congresso fechado por uns tempos, ministros do Supremo afastados, mais deputados e senadores cassados, censura prévia na imprensa, prisões em massa e utilização sistemática da tortura contra os presos políticos. A instalação do regime de terror, se paralisou parte da oposição, radicalizou outra. Milhares de jovens, julgando que não tinham qualquer possibilidade de atuação legal contra o regime, escolheram o caminho das armas.

As ações da guerrilha urbana, antes espaçadas, amiudaram-se, cada vez mais audazes e bem organizadas: captura e desvio de armas, assaltos a bancos, panfletagens protegidas por revólveres e metralhadoras, explosões de prédios públicos, seqüestros de embaixadores etc. Essas ações, segundo a estratégia da maioria das organizações, buscava reunir dinheiro, armas e combatentes para o lançamento da guerrilha rural, fase que era tida como a decisiva.

Num primeiro momento, o regime recuou, desarvorado. Mas, aos poucos, reorganizou-se e, graças ao uso de métodos brutais de interrogatório, foi recolhendo informações sobre as organizações guerrilheiras, o que rendia novas prisões, mais torturas e novas informações, num cicio de terror eficiente que fez a vitória pender, em pouco tempo, para o seu lado. O assassinato de Carlos Marighella (Fabiano, neste livro), ocorrido em 1969, foi o símbolo dessa virada. O de Joaquim Câmara Ferreira Toledo (Diogo), em 1970, confirmou essa tendência. O de Carlos Lamarca, em 1971, não deixaria mais dúvidas: a guerrilha estava liquidada. Milhares de militantes foram presos, muitos mais buscaram o exílio, centenas foram mortos, alguns em combate, a maioria sob tortura.

Fecho o parênteses histórico e faço uma última observação: “Viagem à Luta Armada” é diferente maioria dos livros de ex-militantes sobre o período da luta armada, escritos quando o chumbo ainda estava quente e as feridas abertas. Não veio para saciar uma eventual sede de informação, nem para provar nada a ninguém. Não é um libelo ou tampouco um cartão de visita para os novos tempos. A impressão que dá é que não foi escrito, mas ruminado, rolando, antes de vir ao mundo, pelos sete estômagos da derrota, da impotência do ódio, da droga, do delírio, da psicanálise e, finalmente, da literatura. Talvez tenha se passado com ele o mesmo que ocorre com os vinhos de personalidade. Precisam de tempo, às vezes de muito tempo, para perder a amargura e alcançar o ponto exato. Vinhos jovens descem mais facilmente, mas só duram o breve instante da novidade. Depois vão para o vinagre.

Assim, este não é um livro politicamente correto. Anda na contramão. Atropela preconceitos e idealizações, quando fala sobre a generosidade, mas também sobre o lado escuro da guerrilha. Por isso mesmo, convém afivelar o cinto de segurança.

(*) “Viagem da luta armada”, de Carlos Eugênio Paz. Foi editado em 1997 pela Civilização Brasileira e reeditado pela BestBolso em 2008.

Um comentário:

Luiz Claudio Cunha Souza disse...

Para quem quiser conhecer a verdade sobre a história deste período,o que foi realmente a luta armada, quem eram, o que fizeram e o que sofreram estes heróis que resistiram ao golpe civil-militar, os livros do Carlos Eugenio Clemente são indispensáveis. Foi a partir da leitura destes livros que pude perceber que tinha diante de mim um herói de notável carater e uma pessoa extremamente honesta a ponto de relatar nos seus livros até mesmo o que considerou como erros cometidos durante sua luta na resistencia ao golpe. Honestidade essa que acabou por lhe trazer problemas até mesmo com alguns setores da esquerda nacional.